sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Rato

Thiago Almeida

Chove agora, amanhã alaga e depois é sol na cara. Despido, inteligente e corrompido faço o tope como uma criança que ainda não aprendeu amarrar o próprio calçado. De ruim não passa, o além é descaso com a própria sorte. Homens e mulheres, respeito, amor, indecência, verdade e sempre a história fica pela metade, e sempre alguém interpreta errado e o Sempre é uma contingência de desocupados. Acordo e ligo o rádio, ensurdeço minha seriedade. Eu não sou réu, sou rato, mas se por pecados maiores não me mato, sobrevivo desolado o tempo da compreensão. Debruce em mim só a expectativa da mudança. A partir daqui não respondo ciente, pra que ficar perguntando? E sim, adoro biscoitos de amendoim.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Quem me habita?


Minhas mãos são feitas disso que é carne. São nada. Posso ver através delas, juro que sim. Tentei perceber minha face com meus próprios olhos, seus ângulos e sombreamentos, a face material e não o reflexo no espelho do banheiro. Não pude. Não posso. Não tenho.


domingo, 15 de novembro de 2009

Dança em mim

 

Amanda Com 

Pegue a navalha, o vinho
Deprima os ursos de pelúcia
E faça um sanduíche de ervilha.

Suba a meia-calça
E desça até a garagem
Entre no carro e
Desembarque do juízo.

Óculos escuros ficam bem à noite
Seus saltos assaltam a timidez.
Você vai engolir alguém hoje,
Cuspir na cara da pior cantada?

Ah, deflorar meus melhores acordes
Têm baratas no meu armário
Traça nos seus fichários.
Goza um desastre de picos dissonantes
Dança em mim,
Me traça que sou barato.

-

É melhor que não tentem pressagiar se escrevo para este ou aquela,
é melhor que não transformem palavras em imagens;
não agora, não assim.

sábado, 7 de novembro de 2009

Single


Agora foi. Parece-me que não consigo encontrar Alguém, e, a essa altura, também não sei dividir mais nada, nem a cama, nem o controle remoto ou o espaço do meu apartamento. Perdi a paciência para ser cobrado, fazer planos a dois e explicar o viés de meus desejos maiores. Cultivo alguns temperos na varanda, regando-os ao entardecer, deixo alguns cactos pequenos espalhados pela casa como objetos de decoração, tomo banhos longos, faço comidas exóticas, falo só e assisto a filmes proibidos pela noite.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Coke

 

opoisfoi  

Você me deixou com preguiça de ser
normal. Que sinta desapego por mim.

Sabe, tô me sentindo meio coca-cola hoje.
Percebeu como todo mundo é fascinado por
algo ilimitado, ardente e molhado?
Tenho sido uma imitação do que
sempre quis ser. Olhe eu ali:
no jornal, na televisão, em você.
Na gaveta, debaixo da poeira e
pelas prateleiras se amontoam os
livros, vícios de fuga-esperança.
Tenho sido Bandido. Você se agrada
do Mocinho?
Nem acredito em tudo que ouço
Não dou crédito pra tudo que falo
Agora é tudo bobagem, faço canções
de desencanto depois das dezenove
na garagem do Pedro e da Camila.
sol menor é Dó maior.

Minha saliva tem gosto de sabão,
espumo de raiva. Quando lavo louça
quebro os pratos e sempre sou
desastre na vida de alguém.
Não, não é de guarda-chuva,
eu sempre esqueço me roubam ou perco.
Estendo-me ao longo de todo o tapete
e lanço pelos ares cartas do
baralho. Sempre sou desastre
na vida de alguém.

sábado, 31 de outubro de 2009

-


Tenho pressa, mas não excedo nem me conformo. Canto e quase grito, pareço sabiá inaugurando o amanhecer. Não há volume que me satisfaça, eu quero que todos me ouçam, eu tenho algo pra dizer, vocês precisam se arrepiar, enlouquecer, berrar com toda a verdade da alma e mentira do corpo. Tudo é amarelo do sol que arde até que a tempestade arranque as roupas do varal, levante o vestido das beatas, sacuda o pólen nas flores e eu só sei fazer um passo de dança. Qualquer sensação sempre será única por ser só sua. Alguém sempre vai: morto, fugindo ou abandonando. Logo depois aparece outro: engraçado, chato ou apaixonado. Você lamenta que tudo vai mudar e eu espero que nunca mais seja a mesma. Pode chorar por amor, tudo vai dar certo quando a fronha secar. Quem nunca o fez perdeu uma vida inteira. Vem, desce as escadas correndo que lhe espero com um sorriso bem grande na face, vou ser seu amigo ao som de Tim Maia amar por inteiro.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

O que você faz com ela?


Atesto que minha testa

segura da sobrancelha
o peso de seus - que são
meus - pêlos.
Se me escapa o controle
e por descuido escorre,
um tanto de espuma
em direção ao olho,
sei que me salvas
à vista
ou a prazo, é fato que lhe pago
mas não aparo
taturanas tais.
Se inclina quando indíguino
e fecha na raiva despertada,
é ainda sugestiva à libido,
quando desce junto a pálpebra
em flertes enamorados.
Salve pestanas,
celhos que vivem na sombra.
Que vidas têm?

domingo, 18 de outubro de 2009

Eu permaneço

jorge alfar

(Daquilo que justifica Saudade)

Que eu me faça em bronze e que de mim te tornes estátua da reverência à beleza infinita resplandecente em ti, não quero privar-me da tua presença sob circunstância alguma. Sinto tua falta. Sinto sem querer e minto que não. Quando vejo já estou imaginando o que nós ainda não fomos, qual lugar tu irias preferir...
- Sorvete com cobertura?
- Moço!
- Oi?!
- Com cobertura, o sorvete? (...)
Logo chego em casa, a cama me prende e eu me perco num caminhão de idiotices escritas inspiradas em anotações de espontaneidade dos meus dizeres mais sinceros. Como eu sou sem graça, penso e confirmam. Não tenho marteladas certeiras, entorto sempre os pregos. Faço o quê? Busco o novo pintado com as velhas cores, me assusto com as perdas que ainda não tive e passo o dia inteiro na janela engolindo gomos de choro.
Aí tu te manifestas. Sente saudade? Se lavar ela encolhe, é saudade de liquidação? Eu compro a tua. Como eu sou sem graça, não? Sentei no corredor, da forma que falei pra ti que costumava fazer, ele é sempre meio escuro, encolhi as pernas e permaneci. Eu permaneço. Sem graças.

sábado, 17 de outubro de 2009

Eudaimonia Reversa

bebadocage


Que vá a merda esses teus conceitos Aristotélicos, filosofia do justo meio, ética ou virtudes que nascem no reto do dia e desaparecem na cona da noite. Estou bêbado, meu amor, não tenho paciência pra esse nosso pragmatismo romântico, frases de filmes do fim de semana e versos do Djavan. Perdão, vai ser hoje. Depressa que a vergonha não te alcança, amanhã finja que nunca antes havia me visto ou simule o fim do nosso caso de corpos suados. Desevoluo ao êxtase do estágio em que a língua perde a flexibilidade e a única coisa comovente são histórias ao pé do ouvido de crimes passionais e pescarias cômicas. “Tenho vocês, e, Amigos meus, eu lhes amo além da margem desse rio caudaloso, pois são profundos demais meus sentimentos e ainda não aprendi a nadar cachorrinho, não bóio, sou bobo e afogo simplesmente renascendo pinto molhado sempre com um novamente”. Vou dançar - desambiguação: mexer freneticamente meu corpo - tenha certeza que vou fazê-lo em qualquer estado de espírito ainda que eu chore ou sorria ao som da música. Estou só e nada existe além de mim que não me aceite ou desconheça toda poesia da minha ilicitude apaixonada pela vivência das vidas que ainda não vivi, danço. “Garçom, um violão e a canção composta no mundo que gira sem freio de mão, uma dose de cigarro aceso com duas pedras de gelo e um cinzeiro pro uísque!”. Vou cantar, subir no balcão e chutar os copos de cerveja de todos esses burgueses amontoados na disputa pelas vagas do estacionamento, nos sofás dos amassos, mulheres bonitas e a infelicidade em pacotes de presente azuis. Peguem seus inferninhos, sou um socialista e meu praxe tem cheiro de café passado. Nunca fui personagem de mim, ainda que eu quisesse não me aturaria na imaginação e no espelho, mas sei que conquisto dessa forma desentendida com dispêndio ilimitado de afeto, você até pode pensar que minha patologia é misoginia. Pensa errado. Sei que tudo isso vai terminar em um fiasco quando confessar aos berros que amo uma garota comprometida desde o colegial. Sim, demais, mundanice, carnal-carnaval. “Um balde, garçom!”. Preciso dormir. Valeta seca ou banho frio, Beto, Devir, Tônio, Marco, seja lá qual for o objeto do ódio ou do amor, um deles em mim contou a mentira. Take me home, please. Aqui é só corpo, ébrio não habitual que o diabo guia pra casa em que deus abriga, ambos pensam: tanto potencial esse garoto. Eu não decido e ficam tentando conquistar o território desconhecido do arbítrio desvirtuoso. Hein, Aristóteles?